Dom Bosco publicou mais de 150 livros ou opúsculos*. Há um relevante número de seus escritos que se referem de perto ou de longe à Bíblia. Sem dúvida não se encontra uma exposição propriamente dita sobre as Sagradas Escrituras e nem mesmo o comentário de um livro da Bíblia, mas pode-se individualizar uma quantia muito grande de alusões ou de citações bíblicas. Segundo o cálculo de Fausto Perrenchio, pode-se contar seis mil, das quais duas mil para o AT, duas mil para os Evangelhos e duas mil para o resto do NT. Um rápido vôo de pássaro sobre os escritos de Dom Bosco leva-nos a tomar consciência da importância bíblica, variável segundo a natureza das obras, mas constante e certamente desejada.
Na categoria dos manuais destinados à escola, encontramos, ao lado da já citada História sagrada, a História eclesiástica de 1845, que aprofunda evidentemente as suas raízes no NT. Também a História da Itália não deixa de assinalar algumas referências à história bíblica e evangélica. A propósito desta última obra, o padre Lemoyne [que foi por muitos anos secretário pessoal de Dom Bosco e um dos seus principais biógrafos) ousou escrever que «quase todos os capítulos terminam com uma sentença do livro dos Provérbios» (MB V 496), mas esta afirmação não se refere à verdade literal e se justifica unicamente pela atmosfera sapiencial do livro e à frequente referência à lei da retribuição já durante a vida terrena.Dom Bosco era também um leitor apaixonado e um autor de vida dos santos. Escrevendo em 1848 o livro intitulado "O espírito de São Vicente de Paulo", ele copiou quase inteiramente um autor francês, mas «inserindo alguns dados da Sagrada Escritura sobre os quais se fundamentam aquelas informações», que perfazem 213 citações ou alusões à Bíblia. A vida de São Martinho (1855) tem como objetivo ligar os numerosíssimos milagres deste santo à sua origem bíblica. Citações e alusões à Sagrada Escritura aparecem também nas vidas de São Pancrácio (1856), da beata Catarina De-Mattei (1862), da beata Maria dos Anjos (1865) e no drama dedicado a Santo Aleixo (1866).
A Sagrada Escritura está claramente presente nos escritos devocionais destinados ao ensinamento religioso como "O devoto do Anjo da Guarda" (1845), "O Exercício da devoção à misericórdia de Deus" (1847), o "Jovem Instruído" (1847) e o seu correspondente feminino "A filha cristã instruída" (1878), a "Chave do paraíso" (1856), o "Mês de maio" (1858), o opúsculo "Leva contigo cristão" (1858) e sobretudo "O católico instruido pelas práticas de piedade" (1868), grande compilação de orações e exercícios de devoção atribuida a João Bonetti e publicada com a supervisão de Dom Bosco, que contém quase 400 referências bíblicas. Não é de se maravilhar se se encontra somente poucas referências bíblicas nos escritos chamados "amenos", como a Novela amena de "Um velho soldado de Napoleão" (1862), ou nas representações teatrais como "A casa da fortuna" (1865).
Depois de 1848, ano da revolução liberal, a sua preocupação dominante era a defesa da fé e da Igreja católica. A sua estratégia consiste em demonstrar que a religião católica está fundamentada na Bíblia. Em 1853, com o apoio do bispo de Ivrea, lançou um periódico intitulado Leituras Católicas, com o escopo de manter e esclarecer a fé nos ambientes populares e na juventude. O manual de formação cristã intitulado "O católico instruído na sua religião", que foi escrito em 1853, contém nada menos que 390 citações da Bíblia, é uma perfeita ilustração desta nova tática. O livro está dividido em duas partes: na primeira Dom Bosco coloca em cena um pai de família que explica para os seus filhos, na sequência de numerosos "colóquios familiares", os fundamentos bíblicos da religião católica, enquanto na segunda parte ele trata da verdadeira Igreja de Jesus Cristo. Também "O homem de palavra", almanaque oferecido aos leitores das Leituras Católicas, contém normalmente alguma alusão ou citação da Bíblia. Não faltam referências à sagrada Escritura nas outras obras de tipo apologético, como os "Fatos contemporâneos" (1853), a "Vida infeliz de um jovem apóstata" (1853), cuja atribuição a Dom Bosco é incerta, mas tem vários pontos de encontro com "O católico instruído", a "Coleta de acontecimentos contemporâneos curiosos" (1854), "O jubileu" (1854), as "Duas conferências sobre o purgatório" (1857), ou também "Maximino" ou "Encontro de um jovem com um ministro protestante" (1856). Para a defesa da Igreja e de suas instituições ele escreveu a "Vida de São Pedro" (1856), e a "Vida de São Paulo" (1857), onde são numerosas as referências ao NT, enquanto a vida dos Papas dos três primeiros séculos só ocasionalmente lembram fatos ou expressões da Bíblia.
As publicações relativas à devoção a Maria Auxiliadora se multiplicam a partir de 1864, ano do inicio da construção da igreja em sua honra em Valdocco. Elas fazem largo uso da sagrada Escritura, mas interpretada no sentido alegórico e figurado, e com a intenção de exaltar a imagem da Virgem, como aparece em particular nas "Maravilhas da Mãe de Deus invocada sob o título de Maria Auxiliadora" (1868), ou na "Lembrança de uma solenidade em honra de Maria Auxiliadora" (1868).
Na última categoria de escritos de Dom Bosco, na qual unimos as relativas ao Oratório, à congregação e à obra salesiana, à correspondência, às circulares, aos artigos esparsos no Boletim Salesiano, às conferências e ao conto dos sonhos, se encontram também referências ou alusões à Bíblia. Estas são muito relevantes na introdução às Constituições salesianas e em algumas de suas cartas.
Dom Bosco valorizava muito a imprensa em vista da difusão de "bons livros". Ora, existe um bom livro? Existe um livro no qual «os pensamentos, os princípios, a moral» lhe dão consistência «de livros e da tradição apostólica» – escreverá numa circular de 1885 – , que trazem estas afirmações consideráveis:
«Eu não exito em chamar de divino este meio, porque Deus mesmo o considerou útil para a regeneração do homem. Foram livros por ele inspirados que levaram o mundo todo para a doutrina certa. Ele quis que em todas as cidades e em todas as vilas da Palestina existisse cópias e que todo sábado se fizesse leituras nas reuniões religiosas. No começo estes livros foram patrimônio somente do povo Hebreu, mas sendo as tribos levadas para o cativeiro na Assíria e na Caldéia, eis a sagrada Escritura ser traduzida na língua siro caldaica e toda a Ásia central tê-la na sua língua. Prevalecendo a potência grega, os Hebreus levaram suas colônias por todo ângulo da terra e com isso se multiplicaram ao infinito os Livros Sagrados, e os Setenta, com a sua tradução, enriqueceram também as bibliotecas dos povos pagãos; assim, os oradores, os poetas, os filósofos daqueles tempos tiraram da Bíblia não poucas verdades. Deus, principalmente com seus escritos inspirados, preparava o mundo para a vinda do Salvador»* Opúsculo: impresso ou livro pequeno, de poucas páginas
Confira os outros trechos do texto:
1. Introdução / A Igreja e a Bíblia depois do Concílio de Trento.
2. João Bosco era um apaixonado pela Bíblia.
1. Introdução / A Igreja e a Bíblia depois do Concílio de Trento.
2. João Bosco era um apaixonado pela Bíblia.
4. Dom Bosco e a História Sagrada
5. A pregação deve apoiar-se na Sagrada Escritura
6. A Bíblia nos escritos de Dom Bosco
5. A pregação deve apoiar-se na Sagrada Escritura
6. A Bíblia nos escritos de Dom Bosco
Referência bibliográfica
WIRTH, Morand. Dom Bosco e a Bíblia: introdução para uma lectio divina salesiana da Escritura [tradução: Narciso Ferreira]. Salesianum. 72 (2010) 743-776.
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